quinta-feira, 29 de maio de 2014



“SERENATA”

Quando menina eu sonhava.
Sonhava com alguém me oferecendo uma serenata.
Alguém que chegasse no meio da noite.
Na frente da minha janela e cantasse.
Queria que esse alguém também tocasse.
Um sonoro violão eu queria que me acordasse.
Imaginava os sons melodiosos se propagando pelas ruas...
Queria tanto isso pra mim.
Um dia me dedicaram uma e eu não estava presente.
Que pena!
Como sinto ter viajado naquele dia.
Minha mãe contou como foi tudo, mas eu não presenciei.
E como sempre lamentei.
Mas tudo bem, a serenata existiu.
Agora sou eu que saio a cantar serenatas.
Não nas janelas das sonhadoras.
Mas canto com meu grupo pra alegrar e encantar as pessoas que nos ouvem.
Gosto de fazer parte deste grupo de seresteiros.
Somos tão alegres, tão festeiros...
Amanhã vamos nos apresentar novamente e vai ser um evento muito esperado.
Estou aqui a torcer que tudo saia muito bem e que as pessoas nos admirem.
Torço para que consigamos passar algo bom às pessoas. Que consigamos mostrar que o romantismo ainda é e não está ultrapassado como muitos dizem.
Tomara que amanhã tudo saia a contento.
Vamos cantar Malandrinha e Lua Branca.
Nos identificamos mais com Lua Branca e vibramos muito quando cantamos.
São canções antigas e quase esquecidas das pessoas.
Acho válido resgatarmos este tempo perdido... acho válido sim.

sonia delsin


O GAROTINHO

Fiquei o dia todo com o guri na cabeça.
Vou contar como foi tudo.
Ontem à noite eu aguardava num ponto de ônibus um que me trouxesse pra casa.
Era bem tarde já.
Uma chuva fininha e fria caía quando uma jovem se aproximou trazendo pela mão um menininho lindo.
Ele tinha os olhos febris, o cabelo repartido de lado. Notei que o cabelo era bem pretinho, brilhante e parecia feito de veludo.
A moça era realmente muito jovem e me perguntou se eu tinha visto passar certo ônibus.
Notei o quanto ela cheirava a cigarro e vi que era bem bonita.
Respondi que tinha passado sim há menos de dez minutos e ela lamentou tê-lo perdido.
O garotinho tinha a respiração cansada e a mãe foi me contando que estavam saindo do pronto socorro onde ele fora medicado (a esta altura ela já o tinha chamado de filho várias vezes).
O garoto sentou-se no banco encharcado. A mãe procurava abrigá-lo da chuva, mas estas chuvas de verão costumam vir acompanhadas de ventanias e estava bem molhado o banco.
Fiquei olhando-o e achando-o tão bonitinho.
Nenhuma vez ele se queixou. Ficava quietinho e respirando com certa dificuldade. Tinha os olhos tão tristinhos, mas eram olhos lindos. Grandes, negros, sobrancelhas bem arqueadas, cílios longos.
Eu ficava a olhá-los e como desejei ter uma quantia maior em dinheiro na carteira. Eu os ajudaria a pegar um táxi (estava desprevenida e eles moravam bem longe).
A hora passava. O ônibus não vinha e o garotinho permanecia quietinho, encolhidinho.
Senti uma pena danada (mesmo sabendo que não devo sentir piedade). Pensei nele crescendo.
O que o mundo vai oferecer a esta criança?
Deu-me uma sensação tão ruim. Pensei que pode se tornar um marginal.
Ficamos tão impotentes muitas vezes, mas sei que não posso pensar assim. Temos que ter pensamento positivo.
Minha condução chegou antes que a deles chegasse. Hoje me lembrei muitas vezes daquela carinha linda e desejei melhoras. Imaginei-o brincando e feliz.
Puxa. Este é apenas um fato, pois tanta coisa acontece. Mas meu coração ficou doendo e quis contar em homenagem àqueles olhinhos lindos.
Tomara que hoje estejam brilhando, mas não de febre. De felicidade.

sonia delsin


BALANÇO DO ANO

A Ritinha hoje nos falou que a aula não seria prática e que pegássemos os banquinhos.
Bem, vou lhes falar quem é Ritinha, pois para vocês se trata de uma completa desconhecida. É minha professora de expressão corporal.
Fizemos um círculo e já imaginamos que teria bastante conversa e teve.
A professorinha, que por sinal é uma graça, nos falou que durante todo o ano esteve conversando conosco, esteve nos passando seus conhecimentos e que hoje queria nos ouvir.
Era um balanço do ano que passou, tínhamos que falar de como foi a experiência, tínhamos que falar quais eram nossas expectativas, os motivos que nos levaram a frequentar o curso, do quanto nos satisfez ou não. Que fôssemos bem abertos no depoimento.
Eu fui a segunda pessoa que ela indicou pra falar.
Engraçado que não senti como sentia antigamente um frio na barriga quando tinha que me expressar oralmente. Eu sempre consegui me abrir bem escrevendo. No tempo escolar tudo ia bem se tivesse que escrever, descrever, fazer cálculos, mas na hora de falar era um caos.
Timidez? Não sei bem. É que sempre me expressei na escrita e isto sempre fez parte de mim.
Mas mudei. As pessoas mudam? Às vezes dizemos que sim, outras que não. Mas mudam sim. Bem, penso que sim, porque me vejo agindo de forma diferente.
Eu falei dos motivos que me levaram até lá, falei do que esperava encontrar e do que encontrei e não esperava de forma alguma. Falei que subi alguns degraus e que encontrei pessoas maravilhosas, que me deram força, que riram comigo e até choraram comigo. Contei que eu descobri nesta idade que tenho uma boa voz pra cantar num coral, num grupo de seresta e que me identifico demais com dança e música. Falei do quanto aprecio tai-chi.
Enquanto eu falava todos me olhavam e aquilo não me intimidava de forma alguma. Contei do quanto tenho cantado e dançado. Além de todas as minhas outras atividades e como consigo conciliar tudo e ainda escrever. Foi até uma surpresa pra muitos que nem sabiam que escrevo.
A professora comentou a respeito de meu depoimento que esteve todo o ano me observando e que percebeu todos os meus progressos.
Ouvimos todos e foi muito bom, porque pudemos notar que todos estavam sendo muito sinceros e colocando o coração na conversa.
Afinal formamos um grupo de amigos e estamos apenas buscando uma forma de viver melhor e temos encontrado. Chega uma hora na vida que repensamos todo nosso viver e descobrimos o que precisamos de fato.
Saí contente da aula, pois foi muito fácil fazer este balanço do ano e expor a todos minhas próprias conclusões.

sonia delsin


O PODER DAS MÃOS

Hoje eu vou lhes contar...
Um dia descobri que as minhas mãos dores conseguiam eliminar.
Sim. Elas possuem uma força poderosa.
Não estou contando prosa.
Acontece simplesmente.
Alguns entendidos no assunto me garantem que isto pode acontecer a toda gente.
Basta crer.
As dores do joelho de meu filho eram insistentes e ele me pediu uma massagem.
Eu ergui a mão esquerda de palma virada pra cima e com a direita eu fui tocá-lo. Mas eis que descobri que havia uma energia. Algo que fluía.
Pensei: Meu corpo se fez um canal pra curar este mal.
Não cheguei a tocá-lo porque minha destra sentia um campo de força a rodear meu filho.
Entendi que estava acariciando sua aura e fui massageando... massageando.
De olhos fechados permaneci um tempo e quando eu terminei ele me garantiu que a dor tinha desaparecido por completo.
Os dias passaram e ele não voltou a sentir dores no local.
Outras vezes eu me posicionei... elevei o meu pensamento de uma forma muito positiva e outras pessoas massageei.
Fiz isso em mim mesma e o resultado sempre foi bom.
Não vou lhe dizer que sou uma curandeira. Nada disso. Aliás, estou muito longe disso e gostaria de não ser mal interpretada, pois estou escrevendo este artigo de coração aberto. Narrando um fato que se passa comigo. Isto não é feitiçaria, bruxaria ou coisa que o valha. É simplesmente energia captada por uma pessoa para ser transmitida a outra no sentido de fazer o bem.
Eu descobri a massagem prânica da forma mais natural possível (sentindo) e procurei conhecer melhor o assunto... ouvi alguns amigos e me dediquei com carinho.
Alguns anos atrás me afastei porque durante uma massagem pressenti uma doença muito grave num ente querido e ele veio a falecer dois meses depois.
Aos poucos desbloqueei-me e muitas vezes realizo as massagens em meu corpo que sempre foi muito acometido de dores neste meu viver.
Se o mundo que nos rodeia é repleto de energias acho natural que a aproveitemos da melhor forma. Fazendo o bem, eliminando dores.
Eu adoro minhas mãos... adora-as porque elas podem captar energia, porque elas são pura energia, no trabalho, no acariciar. São mãos que não se cansam de trabalhar. E sempre querem muito mais realizar.
(SÓ MAIS TARDE É QUE DESCOBRI QUE O QUE EU FAZIA NADA MAIS ERA DO QUE APLICAR REIKI E HOJE EM DIA ME DEDICO MAIS A ISSO)


sonia delsin


UMA ESTÓRIA CHOCANTE

Bem, nem sempre posso escrever textos alegres, porque a vida tem um pouco de tudo. Este que vou escrever agora é pra contar de um caso verídico que me chocou muito ontem.
Preciso contar, desabafar.
Vamos lá.
Todas as quartas-feiras eu visito um asilo da cidade onde resido. Nele estão abrigados mais de sessenta idosos.
Eu me apeguei a eles e eles a mim. Alguns estão bem fora da realidade, mas neste mundo em que vivem sentem necessidade de afeto, de toques. Eu procuro levar meu coração bem alegre quando vou lá e sempre sou muito recebida. Tenho este desprendimento pra abraçar, para afagar e para sorrir. Falo de coisas divertidas e procuro alegrá-los. Demonstro interesse por cada estória que me contam. Enfim, dou atenção, porque é pra isso que vou lá. Pra entregar um pouco de amor.
Muitos estão completamente lúcidos e costumam conversar longamente comigo.
Ontem conheci um senhor que me impressionou. Impressionou de imediato. Ele estava numa cadeira de rodas. Suas pernas foram amputadas. Uma bem rente à virilha e a outra um pouco abaixo do joelho. Ele me mostrou que tem um grande movimento no joelho e brincou dizendo: Não se aproxime muito que te passo uma rasteira com meus pés, viu?
Suas mãos quase não têm dedos. Numa apenas dois toquinhos. Praticamente ele só tem as palmas das mãos, mas são ágeis e com elas ele pega objetos com grande facilidade.
Ele é sorridente e conversa bem.
Fomos adentrando num bom papo e ele me contou que sofreu uma violência tamanha que o levou a morar lá.
Contou-me que morava num bairro afastado e nas redondezas moravam muitos marginais. Contou-me inclusive que muitas vezes procurou ajudar estas pessoas, mas que em troca de sua caridade recebeu uma grande ingratidão.
Certo dia entrou em sua residência dois ladrões e aproveitando-se de sua fragilidade o assaltaram. “Limparam” a casa e ainda encostaram o revólver em seu pescoço. O ladrão desistiu no último instante de puxar o gatilho.
Ele me falou que viu a cor da morte.
Contou-me que isto o deixou revoltado e que tenta perdoar, mas está difícil.
É mesmo revoltante, mas tentei lhe mostrar que deve perdoar, porque uma pessoa que age deste modo merece pena. Muita pena. E ficarmos com o coração amargurado nos faz mal.
Ele é pequenino na cadeira de rodas, mas tão brilhante. Tem uma conversa tão boa. Disse que adora ler e fiquei de presenteá-lo com alguns livros na próxima visita.
Tem horas que não acreditamos que fatos como este podem acontecer, mas acontecem e coisas ainda piores.
O que podemos fazer? Temos as mãos atadas?
Eu procuro levar o meu coração, os meus mais leves e sinceros sentimentos quando os visito. Gostaria que mais pessoas estivessem fazendo isso.
Eles têm muitas necessidades materiais, claro que têm. Mas necessitam de afeto. De muito afeto.
Vamos estar sempre vibrando de uma forma positiva pra que não se repitam fatos como este que tanto prejudicou este senhor, pois ele poderia estar vivendo em sua casa.
Na despedida lhe falei: Não fique triste, aqui você está protegido, bem cuidado e estarei sempre lhe visitando. Sempre teremos muito a conversar.
A estória é esta. Triste, dolorosa, mas verdadeira. Eu contei da forma que vivenciei tudo.
Ainda parece que o tenho à minha frente, tão espertinho em sua cadeira de rodas.
O mundo não é como gostaríamos que fosse.
Eu tenho certeza que muitos de meus leitores ficarão tão chocados quanto eu fiquei.
É a impunidade? Só sei que existe muita coisa errada.

Mas peço a todos, vamos vibrar de uma forma positiva. Vamos. Já é um passo... Pequenino, mas um passo.

sonia delsin


FLOR DE PESSEGUEIRO

Já parou pra observar uma flor de pessegueiro?
Como é delicada!
Tem uma leveza que encanta.
Nossa vida pode ser assim também. Leve, simples...
Depende de nós...
Muitas vezes exigimos muito dos outros ou de nós mesmos.
Muitas vezes enxergamos só o lado ruim das coisas e deixamos passar desapercebidas as boas, as bonitas. As que realmente têm valor.
Na vida existem as passagens duras, mas quando entendemos que isto faz parte da caminhada tudo fica mais fácil. Quando entendemos que as fases ruins passam e que elas só nos chegam para nos fortalecermos a carga parece pesar menos, a dor dói menos...
Tudo melhora quando começamos a olhar o mundo, não como se olha um inimigo, pois ele não é. A nossa vida aqui é uma passagem, uma viagem que estamos fazendo.
Estamos nos edificando.
É assim que penso. Encaro de frente os problemas; me desvio ou salto os obstáculos conforme eles vão surgindo. Não fico lamentando porque eles estão à minha frente e não fico esperando que alguém venha tirá-los... Eu tento remover, eu tento me desviar... minha meta é sempre seguir em frente.
Tenho notado algo em mim. Que muitas vezes caio, porque todo mundo uma hora cai, mas que me fortaleço a cada tombo e me levanto com mais garra... com mais desejos de continuar a seguir minha estrada.
Que não me amarguro com o sofrer e que não guardo mágoas.
Que aos poucos vou depurando este meu ser que veio aqui pra isso... para se fortalecer, para subir degraus.
Noto que algumas pessoas sempre estão reclamando, da vida, do mundo, das pessoas que as cercam, do ambiente em que vivem, do trabalho; até de si mesmas reclamam.
Parecem estar descontentes com tudo.
Tudo bem que os problemas sociais nos afetem, que a o país esteja passando por momentos duros, que fica cada vez mais difícil lutar pelo pão de cada dia. Mas não conseguimos modificar isto.
Não digo que devemos nos conformar com o que está errado. De forma alguma, se pudermos fazer alguma coisa para melhorar, devemos fazê-lo.
Mas independente de tudo isso, o bom, o maravilhoso, é vivermos bem conosco, com o que nos cerca. No ambiente de trabalho devemos dar o melhor de nós mesmos.

sonia delsin


O CANTO DO SABIÁ A ME ENCANTAR

Acordo e o dia ainda não amanheceu.
A aurora traz junto com ela o lindo canto de um sabiá.
Na cama fico ouvindo. Ele sozinho é uma orquestra. Faz uma festa!
São trinados alegres.
O canto desta ave me traz uma sensação de aconchego, de ninho.
Abraço o edredom e fico ouvindo.
Ele canta tão alto e enche o dia que vem vindo.
Recordo meu pai. Parece que o tenho bem à minha frente.
As conversas todas parecem que me voltam. O cheiro das gaiolas, as vasilhas de ração, de água. Os excrementos...
Nossa! Como tudo isso me marcou!
Não suportava ver os pássaros engaiolados e meu pai os amava tanto.
Eram vários.
Certa vez um ficou cego. Um dos que tinha o canto mais bonito.
Como era triste aquilo!
Triste e bonito, porque meu pai era de uma dedicação com aquelas aves que me emocionava.
Parece que vejo tudo. O jardim bonito. Parece que este canto que ouço agora é o mesmo de outrora.
Só que hoje não está mais aqui o meu querido pai.
Tanta coisa mudou.
Eu vivo tão sozinha e guardo tantas lembranças boas. Lembranças tão ternas.
Meus pais queridos, a nossa linda casa, os jardins, o quintal enorme.
Tem horas que choro recordando o passado e em outras eu rio pras lembranças.
Que bom que guardo tudo isso! Que bom que ainda existem sabiás cantando! Que bom que minha alma ainda é a mesma que vive com tudo se emocionando!

Ainda bem que muito antes de sua morte meu pai entendeu que os pássaros não eram felizes presos. Ele os soltara um dia... ele entendera por fim que eram mais felizes soltos...

sonia delsin