E A VIDA SEGUE EM
SENTIDO HORÁRIO
Hoje, como
habitualmente faço saí para caminhar e pus-me a refletir.
Pensei na vida,
nos anos vividos, nas dores que superei, na luta constante, na minha busca.
Nos porquês
incompreendidos. Inaceitáveis e por fim entendidos.
Em determinada
altura do caminho parei por alguns minutos numa praça e bem no centro dela
existe um lago artificial.
Eu me sentei para
observá-lo e recordei uma data tão distante. Meu filho caçula era pequenino,
arteiro, terrível mesmo.
Ele caiu naquele
laguinho.
Recordei o susto
que levamos e o seu choro.
Era um dia tão
frio aquele.
Tantos anos se
passaram e fechei meus olhos.
Parecia estar
vendo-o novamente à minha frente totalmente encharcado. A roupinha era linda.
Eu caprichava tanto. Gostava de ver meus filhos sempre bem vestidos, bem lindos
mesmo.
Hoje em dia posso
rir com esta lembrança e com tantas outras porque o tempo passou e trouxe tanta
coisa diferente, surpreendente.
O meu inquieto
filhinho que me deixava completamente maluca é hoje em dia um intelectual. Um
jovem extremamente calmo, centrado.
Costumamos ter
longos diálogos e chego a me perguntar em que canto foi parar aquela criança
peralta.
Ele não podia me
ver por minutos que fosse distanciada dele que se punha a chorar
desesperadamente.
Tomei tantos
banhos com ele dentro do banheiro. Eu colocava seu carrinho para que ele
ficasse próximo a mim ou procurava tomar banho quando ele estava dormindo.
Hoje rio quando
recordo estas coisas.
Ele sempre estava
ao meu lado. Sempre.
Quando chegou a
idade pré-escolar foi terrível. Eu o acompanhava até a escola e ficava lá um
tempo. Esperava que se distraísse bastante e então saía de fininho. Meu coração
doía quando imaginava que choraria quando percebesse minha ausência. (Sei que
muitas pessoas condenariam este meu comportamento).
Na saída eu o
aguardava e ele vinha todo contente me encontrar. Era lindo. Deus! Que lindo
ele era vindo ao meu encontro correndo daquele jeito.
Aos poucos foi
entendendo e aceitando minhas ausências. Foi compreendendo que precisava
conviver com outras pessoas além de mim.
Isso tudo
recordei a olhar o lago. Meus olhos acompanhavam os peixes que nadavam
tranquilamente, mas meu pensamento estava tão longe dali.
Por fim me
levantei e pensei que a vida segue sempre em frente. Não voltamos ao ontem por
mais bonito e intenso que ele tenha sido.
O hoje está nos
oferecendo outros momentos, outras coisas que nosso ser carece.
E temos que viver
o presente da melhor forma possível. Temos que viver os momentos com toda a
intensidade, exatamente como se fosse o último de nossa vida.
Voltando a
caminhar pensei que mais um natal nós tínhamos comemorado.
Esta data não tem
mais o mesmo brilho de outrora. Virou consumismo, data de compras, comes e
bebes e o espírito natalino parece se perder nas brumas do tempo.
Não sei bem o que
se passa no coração dos homens, mas para mim foi Natal. No meu coração é Natal.
E a vida segue em sentido horário.
sonia delsin
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