FIGURAS FOLCLÓRICAS DE MINHA TERRA
Nas pequenas cidades surgem de tempos em
tempos criaturas folclóricas que marcam uma época.
Da minha infância guardo “Belém”, com suas medalhinhas,
sua loucura mansa.
Eu a temia e ao crescer mais só lhe tinha pena.
“Chico Preto”. Ainda vejo sua carapinha, ouço sua voz
sempre enrolada pelo efeito do álcool.
Lembro-me de uma cena engraçada e ao mesmo tempo
deprimente. Chico abraçando um ônibus, não querendo deixá-lo seguir viagem.
Havia também uma velha senhora obesa, com muitas
cicatrizes de queimaduras pelo corpo. Dessa não me recordo o nome.
Como falava mal, resmungava! E arrastava o corpanzil
desajeitadamente pelas ruas.
“Alfredinho, doce anjo!
Ficaram-me resquícios de lembranças de um cabelo muito
negro, uma voz que não morreu de todo dentro de mim.
“Cride”, com seu saco de bugigangas, sua imundície e
seu cheiro de urina que ficava nas roupas.
“Macaia”, com seu estilo próprio! Guardo dele o sorriso
de dentes perfeitos num rosto mais negro que azeviche.
“Ananias” montado num burrico. Esta figura tosca
pertence a minha primeira infância. Dele só consigo recordar a corcunda e o dia
em quase se queimou todo dormindo num monte de palhas em nossa chácara.
“Seu Aristides” com seu chapelão, cabelo desgrenhado
escapando por baixo do chapéu imenso, pés descalços enormes e uma teimosa recusa
em aceitar que o presenteássemos com calçados de forma alguma.
Um carinho por cada um de nós que chegava a emocionar.
O jeito bonachão e a voz dizendo Seu Mário como se meu pai fosse o seu deus.
“Ana Preta”, que tão bem falava o italiano, com suas
saias rodadas, coloridas, dançando na escola de samba até quase morrer...
Morreram todos. Continuam em nossas memórias.
Hoje vi nascendo uma figura nova nestas ruas.
Bêbado, excêntrico e ridículo!
Saberá firmar-se como figura marcante da cidade?
O apelido “Codo”.
Um vendedor de verduras com um carrinho de mão equipado
de pára-choque, retrovisor, escapamento, placa e uma grande quantidade de
penduricalhos, flores coloridíssimas.
Vestido de mulher, copo na mão e vendendo verduras!
Meu primo fez questão de registrar a cena com algumas
fotografias.
Das outras figuras folclóricas não guardamos retratos.
Muitos de nós os guardamos em nossos corações.
Este rapaz não parece ter a capacidade de firmar-se
para a posteridade e ser contado por alguém no futuro.
Vamos aguardar, quem sabe!
sonia delsin


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