quinta-feira, 29 de maio de 2014



FIGURAS FOLCLÓRICAS DE MINHA TERRA

Nas pequenas cidades surgem de tempos em tempos criaturas folclóricas que marcam uma época.
Da minha infância guardo “Belém”, com suas medalhinhas, sua loucura mansa.
Eu a temia e ao crescer mais só lhe tinha pena.
“Chico Preto”. Ainda vejo sua carapinha, ouço sua voz sempre enrolada pelo efeito do álcool.
Lembro-me de uma cena engraçada e ao mesmo tempo deprimente. Chico abraçando um ônibus, não querendo deixá-lo seguir viagem.
Havia também uma velha senhora obesa, com muitas cicatrizes de queimaduras pelo corpo. Dessa não me recordo o nome.
Como falava mal, resmungava! E arrastava o corpanzil desajeitadamente pelas ruas.
“Alfredinho, doce anjo!
Ficaram-me resquícios de lembranças de um cabelo muito negro, uma voz que não morreu de todo dentro de mim.
“Cride”, com seu saco de bugigangas, sua imundície e seu cheiro de urina que ficava nas roupas.
“Macaia”, com seu estilo próprio! Guardo dele o sorriso de dentes perfeitos num rosto mais negro que azeviche.
“Ananias” montado num burrico. Esta figura tosca pertence a minha primeira infância. Dele só consigo recordar a corcunda e o dia em quase se queimou todo dormindo num monte de palhas em nossa chácara.
“Seu Aristides” com seu chapelão, cabelo desgrenhado escapando por baixo do chapéu imenso, pés descalços enormes e uma teimosa recusa em aceitar que o presenteássemos com calçados de forma alguma.
Um carinho por cada um de nós que chegava a emocionar. O jeito bonachão e a voz dizendo Seu Mário como se meu pai fosse o seu deus.
“Ana Preta”, que tão bem falava o italiano, com suas saias rodadas, coloridas, dançando na escola de samba até quase morrer...
Morreram todos. Continuam em nossas memórias.
Hoje vi nascendo uma figura nova nestas ruas.
Bêbado, excêntrico e ridículo!
Saberá firmar-se como figura marcante da cidade?
O apelido “Codo”.
Um vendedor de verduras com um carrinho de mão equipado de pára-choque, retrovisor, escapamento, placa e uma grande quantidade de penduricalhos, flores coloridíssimas.
Vestido de mulher, copo na mão e vendendo verduras!
Meu primo fez questão de registrar a cena com algumas fotografias.
Das outras figuras folclóricas não guardamos retratos. Muitos de nós os guardamos em nossos corações.
Este rapaz não parece ter a capacidade de firmar-se para a posteridade e ser contado por alguém no futuro.

Vamos aguardar, quem sabe!

sonia delsin

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