quinta-feira, 29 de maio de 2014



DONA MORTE E DONA VIDA

Dona morte começou a me rondar. Encontrou-me fraca e queria se aproveitar.
Eu a vi me rondando. Estava me entregando. Pouco estava me importando. Mas um acontecimento veio me mostrar que a ela eu não podia me entregar.
Tudo de repente podia mudar e só dependia da minha forma de encarar.
Eu a vi várias vezes tão perto de mim. Quase me falava ao ouvido e só se afastava ao ouvir o meu gemido.
Ela devia perceber que uma força, mesmo tênue, me chamava para viver.
Dona morte só se afastaria quando à dona vida eu conseguisse me agarrar.
O que me daria esta força pra continuar?
Algo aconteceu e vou aqui lhes contar.
O que me salvou foi o brilho de um olhar.
Um dia meu filho estava a estudar e eu entrei no seu quarto para lhe falar.
Ele ergueu os olhos do livro e me puxou para um abraço. Com seus braços fez um laço e nada me falou. Seu corpo junto ao meu coladinho ficou.
Ficamos assim um bom tempo. Um sentindo o calor do outro, o hálito. Nossas mãos se estreitaram e por nós falaram.
Eu tremia por dentro e por fora. Sabia que se continuasse como estava acabaria indo embora.
O amor que nos unia era tão grande e naquele instante eu percebi o quanto ele ainda precisava de mim.
Despertei naquela hora. Eu não podia ir embora.
Acariciei seus cabelos negros, alisei suas sobrancelhas de veludo, beijei suas pálpebras cansadas. Contornei com meu dedo sua boca bonita e pensei que devia ficar um bom tempo ainda ao seu lado.
Meu filho amado. Nem sabe, mas me salvou de mim mesma.
Eu, que me achava um peso morto neste mundo, me senti importante de novo. Alguém precisava de meus carinhos, de minhas palavras. De meu abraço.
Eu não me entregaria à morte. Não deixaria um filho à própria sorte.

sonia delsin

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