A FORÇA DA NATUREZA
Os mais velhos sempre me disseram uma frase que hoje me
voltou nítida à memória. Que ninguém pode com a força da natureza. Minha
avozinha me mostrava o fogo e falava: Quem o domina? Os elementos têm poder.
Não brinque com fogo.
Meu pai me ensinou a amar e a respeitar a natureza.
Quantas vezes assistimos juntos temporais acompanhados de raios, de trovões.
Quantos estragos vimos juntos e quanto falamos a respeito.
Quem consegue segurar com as mãos a água? Um bem tão
caro, mas que pode nos tirar a vida; tão benéfico e tão traiçoeiro tantas
vezes.
Eu que quase morri afogada aos doze anos sei bem como
é. Eu queria me segurar, me dependurar em alguma coisa e esta coisa
simplesmente não existia dentro daquele rio. Não era a hora de minha morte,
porque meu irmão que sabia nadar me retirou de lá quase sem vida. Depois aprendi
a nadar, mas junto com a natação aprendi algo muito importante, a respeitar a
água.
Ontem tivemos aqui em minha cidade uma chuva repentina
e acompanhada de forte vento. Um vendaval.
Eu e meu filho ficamos olhando as antenas que
balançavam e nosso pé de acerola que tombava todo.
Por sorte os galhos são bem flexíveis e tombam, mas não
quebram facilmente.
Está tão bonito este nosso arbusto e eu não queria
vê-lo por nada deste mundo ao chão caído.
Pois bem, vou adentrar agora no que me levou a escrever
esta crônica. Quando cheguei hoje no local aonde estudo a primeira coisa que vi
pelo portão entreaberto foi que uma de nossas belíssimas árvores, uma cuja
sombra tantas vezes praticamos tai-chi ao ar livre, estava tombada. Os galhos
retorcidos...
Pareceu-me que um gigante andou por lá ontem. Torcendo
galhos como educadores maus torcem braços de aprendizes.
Foi esta a minha sensação, mas não acredito que a
natureza venha se vingar em cima de belas criações como aquela árvore tão
linda. A idéia me passou e o motivo nem sei. Também nem sabia se devia citar
aqui isto, mas citei e está citado.
No chão estava o filhote de João-de-barro e os pais
aflitos revoavam por lá.
É duro descrever a cena. Nos ponteiros da bela árvore
algumas flores azuladas permaneciam lindas como ela se ainda estivesse de pé.
Senti vontade de chorar. A dor daqueles pobres
passarinhos que tantas vezes vimos carregando material pra fabricar o ninho
chegava a doer no meu peito.
Ficávamos admirando, conversando sob a árvore e os dois
tão empenhados em construir a casa.
Olhando-os revoando conseguia trazer de volta os dias
que os via trabalhando na construção do ninho, a alegria deles.
Uma cerca de segurança foi colocada, pois uma das
outras árvores estava com o caule totalmente trincado e perigava cair.
Fui triste para a sala de aula, porque deixamos no
pátio aquela árvore tombada. Fiquei imaginando se vão cortar as que ficaram de
pé, porque me parece que apesar de imensas, elas são frágeis. Ou o vento foi
tão forte?
Acredito que exista sim uma fragilidade naquelas
árvores, mas são idéias minhas. Não conversei a respeito com nenhum entendido.
E também não sei como encontrarei tudo lá amanhã.
Não teremos mais aquelas sombras tão aconchegantes?
Será muito desolador encontrar aquele local vazio.
Mas se elas podem colocar as vidas das pessoas em
risco...
Algo a pensar, realmente.
Bem, quem pode com a força da natureza? Algumas vezes
vemos um céu tão azul, tão quieto. E de repente algumas nuvens se formam, chega
um vento e o que parecia que ia durar eternamente se acaba.
Eu tinha que contar. Eram simples e lindas árvores, mas
fazem parte do meu dia-a-dia. Ajudam a enfeitar o tempo que passo lá; pela
beleza; pela sombra; pelos pássaros que nela se abrigam; pelas parasitas
grudadas nos caules.
Senti vontade de chorar...
...senti vontade de contar e contei.
sonia delsin


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