quinta-feira, 29 de maio de 2014



O FILHOTINHO DA CORUJA

Vou buscar lá no fundo de mim mais uma façanha da minha infância, pois não tenho medo das lembranças.
Elas são tão doces e outras vezes amargas, mas esta é uma boa lembrança do meu tempo de criança.
Cresci no meio do mato. Fui como um daqueles bichos que corriam soltos pela chácara em que me criei. Hoje eu sei que fui um bicho livre.
Meu pai dizia à minha mãe que não existia alguém como eu (eu era deliciosamente arteira).
Creio que o assustava com a minha intensidade desde a mais tenra idade.
Vivia fuçando em cada canto, porque desejava um conhecimento de tudo que me cercava e do que estava distante também. Não foi a toa que comecei a ler tão cedo e devorei livros a vida toda.
Bem, vamos ao que interessa nesta pequena crônica.
No oco do tronco da jabuticabeira encontrei o filhote. Mergulhei fundo a mão no buraco sem medo de pegar uma cobra ou qualquer outro bicho ─ eu me arriscava, pois nada temia, ─ e o que alcancei foi um filhotinho de coruja tão feinho (mas que achei lindo).
Fui toda orgulhosa mostrá-lo ao meu pai.
─ Veja só que bonitinho, pai. ─ lembro que falei.
─ Vá colocá-lo no lugar, menina, que a mãe dele vem te bicar.
─ Mas você não falou que ela não enxerga durante o dia?
Dando-me um tapinha nas costas o meu pai falou:
─ Vá colocá-lo lá, filha. Ele está crescendo e está se preparando para a vida.
Os anos passaram. Tantos... isto aconteceu quando eu nem tinha sete anos, mas nunca esqueci o fato.
O filhote estava se preparando para a vida e eu também. Não pararia de crescer nunca, pois era minha sina.
Confesso que minha alma ainda é a de uma menina.

sonia delsin

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