quinta-feira, 29 de maio de 2014



UMA ESTÓRIA CHOCANTE

Bem, nem sempre posso escrever textos alegres, porque a vida tem um pouco de tudo. Este que vou escrever agora é pra contar de um caso verídico que me chocou muito ontem.
Preciso contar, desabafar.
Vamos lá.
Todas as quartas-feiras eu visito um asilo da cidade onde resido. Nele estão abrigados mais de sessenta idosos.
Eu me apeguei a eles e eles a mim. Alguns estão bem fora da realidade, mas neste mundo em que vivem sentem necessidade de afeto, de toques. Eu procuro levar meu coração bem alegre quando vou lá e sempre sou muito recebida. Tenho este desprendimento pra abraçar, para afagar e para sorrir. Falo de coisas divertidas e procuro alegrá-los. Demonstro interesse por cada estória que me contam. Enfim, dou atenção, porque é pra isso que vou lá. Pra entregar um pouco de amor.
Muitos estão completamente lúcidos e costumam conversar longamente comigo.
Ontem conheci um senhor que me impressionou. Impressionou de imediato. Ele estava numa cadeira de rodas. Suas pernas foram amputadas. Uma bem rente à virilha e a outra um pouco abaixo do joelho. Ele me mostrou que tem um grande movimento no joelho e brincou dizendo: Não se aproxime muito que te passo uma rasteira com meus pés, viu?
Suas mãos quase não têm dedos. Numa apenas dois toquinhos. Praticamente ele só tem as palmas das mãos, mas são ágeis e com elas ele pega objetos com grande facilidade.
Ele é sorridente e conversa bem.
Fomos adentrando num bom papo e ele me contou que sofreu uma violência tamanha que o levou a morar lá.
Contou-me que morava num bairro afastado e nas redondezas moravam muitos marginais. Contou-me inclusive que muitas vezes procurou ajudar estas pessoas, mas que em troca de sua caridade recebeu uma grande ingratidão.
Certo dia entrou em sua residência dois ladrões e aproveitando-se de sua fragilidade o assaltaram. “Limparam” a casa e ainda encostaram o revólver em seu pescoço. O ladrão desistiu no último instante de puxar o gatilho.
Ele me falou que viu a cor da morte.
Contou-me que isto o deixou revoltado e que tenta perdoar, mas está difícil.
É mesmo revoltante, mas tentei lhe mostrar que deve perdoar, porque uma pessoa que age deste modo merece pena. Muita pena. E ficarmos com o coração amargurado nos faz mal.
Ele é pequenino na cadeira de rodas, mas tão brilhante. Tem uma conversa tão boa. Disse que adora ler e fiquei de presenteá-lo com alguns livros na próxima visita.
Tem horas que não acreditamos que fatos como este podem acontecer, mas acontecem e coisas ainda piores.
O que podemos fazer? Temos as mãos atadas?
Eu procuro levar o meu coração, os meus mais leves e sinceros sentimentos quando os visito. Gostaria que mais pessoas estivessem fazendo isso.
Eles têm muitas necessidades materiais, claro que têm. Mas necessitam de afeto. De muito afeto.
Vamos estar sempre vibrando de uma forma positiva pra que não se repitam fatos como este que tanto prejudicou este senhor, pois ele poderia estar vivendo em sua casa.
Na despedida lhe falei: Não fique triste, aqui você está protegido, bem cuidado e estarei sempre lhe visitando. Sempre teremos muito a conversar.
A estória é esta. Triste, dolorosa, mas verdadeira. Eu contei da forma que vivenciei tudo.
Ainda parece que o tenho à minha frente, tão espertinho em sua cadeira de rodas.
O mundo não é como gostaríamos que fosse.
Eu tenho certeza que muitos de meus leitores ficarão tão chocados quanto eu fiquei.
É a impunidade? Só sei que existe muita coisa errada.

Mas peço a todos, vamos vibrar de uma forma positiva. Vamos. Já é um passo... Pequenino, mas um passo.

sonia delsin

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