UMA ESTÓRIA CHOCANTE
Bem, nem sempre posso escrever textos alegres, porque a
vida tem um pouco de tudo. Este que vou escrever agora é pra contar de um caso
verídico que me chocou muito ontem.
Preciso contar, desabafar.
Vamos lá.
Todas as quartas-feiras eu visito um asilo da cidade
onde resido. Nele estão abrigados mais de sessenta idosos.
Eu me apeguei a eles e eles a mim. Alguns estão bem
fora da realidade, mas neste mundo em que vivem sentem necessidade de afeto, de
toques. Eu procuro levar meu coração bem alegre quando vou lá e sempre sou
muito recebida. Tenho este desprendimento pra abraçar, para afagar e para
sorrir. Falo de coisas divertidas e procuro alegrá-los. Demonstro interesse por
cada estória que me contam. Enfim, dou atenção, porque é pra isso que vou lá.
Pra entregar um pouco de amor.
Muitos estão completamente lúcidos e costumam conversar
longamente comigo.
Ontem conheci um senhor que me impressionou.
Impressionou de imediato. Ele estava numa cadeira de rodas. Suas pernas foram
amputadas. Uma bem rente à virilha e a outra um pouco abaixo do joelho. Ele me
mostrou que tem um grande movimento no joelho e brincou dizendo: Não se
aproxime muito que te passo uma rasteira com meus pés, viu?
Suas mãos quase não têm dedos. Numa apenas dois
toquinhos. Praticamente ele só tem as palmas das mãos, mas são ágeis e com elas
ele pega objetos com grande facilidade.
Ele é sorridente e conversa bem.
Fomos adentrando num bom papo e ele me contou que
sofreu uma violência tamanha que o levou a morar lá.
Contou-me que morava num bairro afastado e nas
redondezas moravam muitos marginais. Contou-me inclusive que muitas vezes
procurou ajudar estas pessoas, mas que em troca de sua caridade recebeu uma
grande ingratidão.
Certo dia entrou em sua residência dois ladrões e
aproveitando-se de sua fragilidade o assaltaram. “Limparam” a casa e ainda
encostaram o revólver em seu pescoço. O ladrão desistiu no último instante de
puxar o gatilho.
Ele me falou que viu a cor da morte.
Contou-me que isto o deixou revoltado e que tenta
perdoar, mas está difícil.
É mesmo revoltante, mas tentei lhe mostrar que deve
perdoar, porque uma pessoa que age deste modo merece pena. Muita pena. E
ficarmos com o coração amargurado nos faz mal.
Ele é pequenino na cadeira de rodas, mas tão brilhante.
Tem uma conversa tão boa. Disse que adora ler e fiquei de presenteá-lo com
alguns livros na próxima visita.
Tem horas que não acreditamos que fatos como este podem
acontecer, mas acontecem e coisas ainda piores.
O que podemos fazer? Temos as mãos atadas?
Eu procuro levar o meu coração, os meus mais leves e
sinceros sentimentos quando os visito. Gostaria que mais pessoas estivessem
fazendo isso.
Eles têm muitas necessidades materiais, claro que têm.
Mas necessitam de afeto. De muito afeto.
Vamos estar sempre vibrando de uma forma positiva pra
que não se repitam fatos como este que tanto prejudicou este senhor, pois ele
poderia estar vivendo em sua casa.
Na despedida lhe falei: Não fique triste, aqui você
está protegido, bem cuidado e estarei sempre lhe visitando. Sempre teremos
muito a conversar.
A estória é esta. Triste, dolorosa, mas verdadeira. Eu
contei da forma que vivenciei tudo.
Ainda parece que o tenho à minha frente, tão espertinho
em sua cadeira de rodas.
O mundo não é como gostaríamos que fosse.
Eu tenho certeza que muitos de meus leitores ficarão
tão chocados quanto eu fiquei.
É a impunidade? Só sei que existe muita coisa errada.
Mas peço a todos, vamos vibrar de uma forma positiva.
Vamos. Já é um passo... Pequenino, mas um passo.
sonia delsin


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