quinta-feira, 29 de maio de 2014



A MORTE

Deus! Eu soube naquele instante fatídico que a vida humana é um sopro só!
Depois de vários dias ajudando minha mãe a cuidar de meu pai num hospital, acordei naquela madrugada que antecedeu a morte de meu velho sentindo que a morte estava lhe rodeando.
Nos últimos dias nos revezávamos na vigília e nos cuidados que o paciente exigia.
Era exatamente quatro horas e meia quando acordei com o coração batendo descompassado e senti que a morte estava por perto. 
Eu queria crer que o meu pai iria se recuperar e sair daquela, eu queria crer mas no meu íntimo sabia, sentia que não seria assim.
Estava hospedada em casa de parentes e naquela madrugada era a minha mãe que cuidava dele no hospital. Sentindo aquele pressentimento enorme que ia perdê-lo comecei a rezar e pedir ao Pai do Céu que nada acontecesse antes do dia clarear. Não queria que ele falecesse na presença de minha mãe, porque temia pela sua saúde frágil.
Cheguei ao quarto do hospital antes das oito da manhã e quando abri a porta do quarto estava presente um dos médicos que estava cuidando dele. O médico ainda brincou dizendo a ele:
¾ Veja só quem chegou!
Seus olhos sempre se iluminavam quando eu chegava. Ele mal conseguia pronunciar as palavras, mas eu conseguia captar quase tudo o que ele queria dizer e nos seus últimos dias de vida fomos mais unidos que nunca.
A despedida de minha mãe foi mais amorosa e demorada do que as outras vezes.
Quando ficamos sós pude ver em seus olhos embaçados que sua vida estava se indo, indo...
Com um gaze umedecido limpei carinhosamente seus olhos já sem aquela vivacidade de antes. Lembrei que aqueles olhos falavam por ele, eram olhos expressivos e autênticos.
Limpei o suor da testa, a boca. E lhe falei suavemente do amor que ele me inspirava.
Sentia uma dor imensa ao vê-lo indo e queria com minhas mãos segurar sua vida.
Logo um enfermeiro pediu-me para deixar o quarto por um tempo que iam lhe dar um banho. Pedi ao enfermeiro que o barbeasse e ele prometeu fazê-lo.
Numa saleta de espera bem defronte ao quarto em que meu pai estava hospitalizado fiquei aguardando o tempo do banho. Demorou um pouco e quando me disseram que já podia entrar tive uma surpresa enorme.
Meu pai estava sentado em uma poltrona, muito bem amparado por travesseiros e com as mãos presas nos braços da poltrona. Ele estava tão lindo, fresco e perfumado. Muito pálido devido a doença, é verdade, mas lindo mesmo!
O enfermeiro ainda me disse que ele poderia reclamar da poltrona depois de vários dias acamado, mas que era normal. Um de seus médicos voltou e ficou um pouco conversando comigo, chegou mesmo a dizer que ele iria se recuperar e que tudo estava sobre controle.
Logo deixou o quarto e ficamos só os dois.
Apesar de não conseguir quase pronunciar as palavras lembro-me das últimas palavras que ele me falou. Ele estava muito preocupado com minha mãe e falava muito de meu filho mais velho.
Pedia água sem cessar e expectorou bastante. Achei que isso estava lhe fazendo bem e de repente vi-o fazer uma força enorme para trás. Tive medo que a poltrona virasse e que ele levasse um tombo. Achei que o ar lhe faltava e tentei lhe colocar a máscara de oxigênio, mas esta não alcançava o local onde ele estava sentado. Apertei a campainha e ninguém chegava.
Vi que ele piorava e gritei por alguém lá do quarto mesmo.
De repente vi seus olhos revirando, revirando e vi que ele já não me olhava mais, olhava uma coisa que estava muito além de mim.
Suas últimas palavras foram: Mãe! Minha Nossa Senhora! Depois disso ele ficou largado na poltrona.
Um enfermeiro entrou nesse instante e gritou:
Parada!
Outros vieram e eu procurei por um médico chorando.
O pranto me deixou cega mas não o suficiente para não ver os enfermeiros tentando ressuscitar meu velho.
Eu sentia que não mais seria possível fazer por ele. Eu havia assistido sua morte e me sentido tão impotente de vê-lo indo sem conseguir segurar aquela vida que se ia.
Eu sei que ele desceu morto para a UTI e sei que sua morte fora ali, naquele instante. Tentaram tudo, eu sei.
Depois disso tentaram me consolar e eu tive que tomar todas as providências que são necessárias nestas horas. Precisei contar à minha mãe e precisei até mesmo tratar da parte funerária.
Tudo doeu tanto que por muitos dias tive meu batimento cardíaco alterado e até agora quando me lembro de tudo sinto que fico descontrolada.
Doeu tanto vê-lo morrer, doeu tanto que parece que alguma coisa se rompeu dentro de mim. Depois disso nunca mais serei a mesma.
Pai, sempre vai faltar seu sorriso tão raro para iluminar minha vida.
Sempre vai me fazer falta sua voz forte e autoritária, seus conselhos, seu olhar dolorido. Pai, você tinha um olhar tão tristonho nos últimos anos.
Que saudades de você!

sonia delsin

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