POBRES CRIANÇAS
Ontem um fato me impressionou. Foi à noite, na
Universidade Aberta onde faço um curso.
Estávamos, o professor e eu conversando no pátio quando
três crianças se aproximaram e começaram a conversar conosco.
Estavam insuficientemente vestidas e o frio estava
intenso.
Perguntei a razão de estarem fora de casa e com roupas
tão finas naquele horário e responderam que estavam usando as roupas que foram
à escola à tarde.
Eram duas crianças lindas e uma pré-adolescente.
Irmãos.
No decorrer da conversa fiquei sabendo detalhes.
A mais velha é que ia contando tudo. Falou que teriam
que ficar ali até as vinte e uma horas porque a mãe não estava em casa.
Contou que fizera um doce de mamão e que tinha ficado
ruim. Falou que gostava de “miojo” como a mãe fazia. Eu quis saber como era e
ela explicou que colocava massa de tomate pra dar a cor vermelha.
O menino ia criticando algumas coisas e ela rebatendo
na tentativa de defender a mãe.
Em certo momento me doeu por dentro.
O garotinho falou: Tia, eu queria ter uma blusa de lã
bem quentinha. Estou com frio demais, veja como está fria minha mão.
Estava uma pedrinha de gelo mesmo.
Menino bonito, um ar inteligente.
Daí foi que ele falou a frase que mais me chocou. Falou
que quer ser rico, que sonha em ganhar um prêmio de loteria.
Deus, crianças falando algo assim é chocante demais. A
mais velha os adora. Dava para notar que queria todo o tempo protegê-los.
Puxava pra baixo as roupas dos irmãozinhos. Mas de nada valia. O menino vestia
um bermudão. A menina uma calça que ia até o meio da canela. Nos pés eles
usavam chinelo havaiana.
Tivemos que voltar pra sala de aula. O professor e eu
ficamos cabisbaixos, impotentes e tentando entender.
Talvez eu os veja outras vezes por lá, ou não.
Francamente não sei, mas parecem morar por perto.
Tenho passado grande parte do dia pensando neles. A
menorzinha era muito quietinha e chupava o dedo todo o tempo.
Deus, doeu! Está doendo.
sonia delsin
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