quinta-feira, 29 de maio de 2014




MANDIOCA, LEITE E AÇÚCAR

Tem coisas que não dá pra esquecer.
Pai, você era uma figura!
Era uma coisa mais pura.
Tão autêntico, tão seu Mário! Nosso querido italianinho.
Quando ia dando nove horas você pedia pra minha mãe cozinhar um pouco de mandioca e mal ela ficava pronta já queria comer.
Então a nossa querida D. Lina preparava um “pratão” com leite e açúcar de montão.
Você se deliciava.
Eu ficava olhando e me perguntava: será que é bom?
Um dia provei e gostei.
Você era o que era. Sem adornos. Era um homem simples que amava natureza. Como um menino se encantava com a beleza.
Hoje bateu uma saudade. Cozinhei mandioca e fiquei pensando naqueles tempos.
Pensei que você também era um poeta. Não um homem das letras. Não escrevia, nem lia, mas como se comovia!
E falava. Discursava sobre a beleza das flores. Dizia que tudo tinha uma ciência.
Você não tinha paciência. Era nervoso, inquieto. Queria tudo correto.
Mas o homem agitado que era se deitava para observar o desenvolvimento de uma caixa de marimbondo. E falava das teias de aranha... me contava dos veios da terra. Mostrava-me os laranjais floridos e os cafezais. Falava dos animais.
Tantas vezes sob as murtas nós ficamos a conversar. Eram longas conversas que me punham a refletir.
Pai, você enfeitou tanto o meu existir.
Um dia você partiu e isto tinha que ser nos meus braços.
Você se foi como quem quer ficar e disso eu vou sempre me lembrar.
Eu senti o quanto lhe doía me deixar.
Suas últimas palavras no meu ouvido sempre vão ressoar.
Até o último instante de amor e compaixão você quis me falar. Parecia que você já sabia os caminhos que eu ainda ia pisar.

sonia delsin

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