BELÉM
Quem se lembra da Belém?
Maltrapilha, coberta de trapos e medalhas.
Um lenço sujo na cabeça de vento.
Na minha infância eu a temia. Eu temia aquela figura
estranha.
O que seria ela?
Uma bruxa?
Cresci vendo aquela mulher caminhando pelas ruas da
cidade.
Era diferente a Belém.
Como eram diferentes o Chico Preto, o Alfredinho, o
Cride...
Quando cresci mais comecei a entender melhor as coisas.
E o cheiro repugnante de urina que exalava da Belém
começou a tocar meu coração.
Comecei a sentir pena dela. Mas não sei se ela
necessitava disso.
Acho que ela era feliz, sim acho que ela era feliz à
sua maneira.
Feliz porque seu mundinho estreito não ia além de suas
fantasias.
Lembro-me de um pôster do Jerry Adriane bem moço, era
um pôster bonito. Ela o carregava dobrado, encostado ao peito e dizia a todos
que ele era o namorado dela. Então eu já era uma adolescente e achava muito
engraçado. Lembro-me que ria a mais não poder.
Era feliz a Belém!
Acho que era.
Já faz bastante tempo que ela morreu.
Um dia a encontraram morta no quartinho da Estação, me
parece que era onde vivia.
Ainda hoje estou me lembrando dela, porque ela faz
parte da história da cidade.
É parte do nosso folclore.
Lembro-me das ruas calmas de Santa Rita. Calmas ruas.
Lembro-me de crianças correndo atrás de uma mendiga e
uma música volta aos meus ouvidos:
-- Belém gonden, o bispo vem, café não tem...
São Carlos, 15 de novembro de 1994
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