quinta-feira, 29 de maio de 2014



O CANTO DO SABIÁ A ME ENCANTAR

Acordo e o dia ainda não amanheceu.
A aurora traz junto com ela o lindo canto de um sabiá.
Na cama fico ouvindo. Ele sozinho é uma orquestra. Faz uma festa!
São trinados alegres.
O canto desta ave me traz uma sensação de aconchego, de ninho.
Abraço o edredom e fico ouvindo.
Ele canta tão alto e enche o dia que vem vindo.
Recordo meu pai. Parece que o tenho bem à minha frente.
As conversas todas parecem que me voltam. O cheiro das gaiolas, as vasilhas de ração, de água. Os excrementos...
Nossa! Como tudo isso me marcou!
Não suportava ver os pássaros engaiolados e meu pai os amava tanto.
Eram vários.
Certa vez um ficou cego. Um dos que tinha o canto mais bonito.
Como era triste aquilo!
Triste e bonito, porque meu pai era de uma dedicação com aquelas aves que me emocionava.
Parece que vejo tudo. O jardim bonito. Parece que este canto que ouço agora é o mesmo de outrora.
Só que hoje não está mais aqui o meu querido pai.
Tanta coisa mudou.
Eu vivo tão sozinha e guardo tantas lembranças boas. Lembranças tão ternas.
Meus pais queridos, a nossa linda casa, os jardins, o quintal enorme.
Tem horas que choro recordando o passado e em outras eu rio pras lembranças.
Que bom que guardo tudo isso! Que bom que ainda existem sabiás cantando! Que bom que minha alma ainda é a mesma que vive com tudo se emocionando!

Ainda bem que muito antes de sua morte meu pai entendeu que os pássaros não eram felizes presos. Ele os soltara um dia... ele entendera por fim que eram mais felizes soltos...

sonia delsin



ABRINDO PORTAS

A vida não é pra ficar estagnada.
O tempo vai nos mostrando isso.
Tudo muda constantemente.
Portas vão se abrindo.
O que precisamos é estar atentos às mudanças - “esta frase um amigo me disse há muito tempo e nunca a esqueci”.
Sempre aparece uma nova oportunidade.
Eu pensava antigamente que precisava seguir um caminho que fora preparado pra mim.
Não é bem assim.
Fazemos escolhas.
Tudo pode mudar sim e para melhor.
Eu acredito em mudanças, porque na minha vida tudo mudou e como mudou.
No começo eu sofri porque não entendia.
Achava que o rio caminhava placidamente para o mar e não era exatamente isso que acontecia.
Estava acomodada ao que julgava imutável.
Não era dessa forma e a vida veio me mostrar isso nitidamente.
Agora que novas portas eu abri, vivo a sorrir.
Sorrio porque sou feliz com esta minha nova vida. Vivo satisfeita com meu novo modo de viver.
Sinto-me livre, leve, solta.
Sou eu mesma em todos os momentos.
Antes eu não podia me expressar como queria.
Antes eu precisava medir palavras, gestos e até olhares.
Não quero condenar pessoas pelo que passei. Era minha estrada. Também tive culpa, porque me deixei dominar. Aceitei muita coisa por amor, mas isto não justifica nada. Temos que impor nossa personalidade e as pessoas precisam nos amar como somos. Claro que ceder algumas vezes faz parte também, mas calar sempre aceitando tudo isso não podemos fazer, porque estamos desta forma destruindo nosso eu.
Sou feliz sim com minha nova vida. Conquistei um espaço meu e sinto-me muito mais preparada para um novo relacionamento. Estou forte agora e sei que a vida me reserva muita coisa.
A felicidade é um estado de espírito e vivo feliz. Vivo a cantar, a rir, a dançar.
Claro que guardamos todas as lembranças, mas aos poucos vamos aprendendo a deixar à tona as melhores, pois estas podem iluminar nossos dias e guardamos bem no fundo as ruins para que nos mostrem que somos fortes em outros momentos, que conseguimos superar muita coisa.
Mais ou menos por ai. O que passamos nos ajuda em parte... mas é no hoje que temos que viver.
Eu tenho um hoje feliz. Cada vez que acordo eu espreguiço e digo a mim mesma: Ganhei mais esta manhã... tenho um dia pela frente. O hoje é um presente. Um caro e lindo presente.

sonia delsin


A MAIOR CRIAÇÃO

Como falarmos qual é a maior criação?
Se estamos rodeados de beleza?
Como é bela a natureza!
Viemos para um planeta tão bonito pra exercitar a nossa evolução.
E parece que não aprendemos o valor que cada coisa que nos rodeia.
Na busca pelo progresso estamos destruindo o que sempre foi lindo.
O poder, a fama, o conforto, a busca pelo prazer...
Será que o homem nunca aprende o que é o viver?
De tão pouco precisamos.
Muitas vezes necessitamos chegar pertinho da morte pra valorizar a vida.
As preocupações se tornam maiores do que nós mesmos.
Quando devíamos estar apenas vivendo.
Sentindo a plenitude do que é estar vivo.
Ganhamos o presente pra viver e tantos de nós vivemos nos preocupando com o futuro.
Outros vivem e revivem o passado. Ficam remoendo o que já está concluído. Acabado. Morto.
Se erramos ou acertamos já foi. Já passou. Já acabou.
Claro que o sofrimento nos marca, mas precisamos usar estas marcas, estas cicatrizes que a vida nos deixa pra nos fortalecemos. Pra saber que já as vencemos.
Eu gosto de ver as pessoas hasteando uma bandeira e caminhando. Dando a volta por cima, seguindo em frente. Reconstruindo sobre os destroços.
Porque a vida é isso. Um eterno superar. Um caminhar...
Ninguém anda pra trás. A estrela que buscamos está lá  na frente.
A mais bela criação qual é? É a vida em si. É a vida...

sonia delsin


MUNDOS QUE SE APRIMORAM

Eu me pergunto às vezes onde está o erro... Por que tantos canalhas parecem se dar tão bem?
Vejo mentirosos levando vantagens e me pergunto quais as razões para tudo isso.
Já faz tempo que não acredito em “inferno e paraíso”.
Então uma doutrina me explica, me mostra uma luz e eu tento segui-la.
Que outras razões podem existir para tantos disparates embaixo deste céu de meu Deus?
Não acredito em anjinhos voando, em nuvens fofinhas, em gramados, mas creio em mundos reformados.
Nossos mundos.
Muitos de vocês podem achar que estou equivocada. Completamente errada.
Mas nada posso fazer. É minha forma de crer. De nada os quero convencer.
Estou apenas a lhes contar que esta foi a resposta mais plausível que encontrei no meu viver.
Creio em reencarnação. Em caminho de evolução.
Acredito que estou sempre voltando... meu ser aprimorando.
Só desta forma consigo compreender porque existe o sofrer. Porque o homem segue certos caminhos.
Muitas vezes ele precisa encontrar sua luz e não consegue.
Noutras, por mais que a vida queira lhes mostrar eles se negam a enxergar.
Volto ao princípio do que aqui eu quis colocar. Estarão realmente se dando bem os canalhas? Os mentirosos estarão levando vantagens?
Algo a pensar...
Penso nas vezes que terei que voltar. No que ainda em meu ser tenho a aperfeiçoar. É uma longa estrada a eternidade e sem pressa ela vai nos oferecendo as oportunidades.
Temos livre arbítrio. Temos nossas escolhas... o caminho é nosso.

sonia delsin


DURANTE A AULA DE TAI-CHI

Hoje enquanto nos exercitávamos praticando Tai-Chi  olhei o céu azul.
Não havia uma nuvem sequer e um sol maravilhoso aquecia meu corpo no começo da manhã radiante.
Olhei um pássaro voando e pensei em quantas vezes desejei poder voar.
Eram tempos duros aqueles que eu ficava observando as andorinhas. Tantos anos se passaram e hoje me chegou a sensação daquele tempo.
Eu precisava me libertar de uma cadeira de rodas, meu Deus!
Era uma jovenzinha  cheia de sonhos e de tristezas também.
Pensava se estaria condenada a viver o resto da vida sem caminhar, sem pular; sem rodopiar; dançar e me exercitar.
Venci uma dura batalha naquele tempo.
Não tive a saúde de ferro que sempre desejamos ter, mas tive força para superar cada problema.
Foram muitos sim, mas nunca fraquejei.
Hoje me vi praticando exercícios no gramado e agradeci a Deus por estar ali, pela brisa que me chegava, pelo sol que me banhava, pelo professor que seus conhecimentos nos passava.
Meu corpo se movimentava com a suavidade que o Tai-Chi pede e meus olhos andavam lentos nas coisas e pessoas que me rodeavam.
O coração batia dentro de peito e parecia dizer o tempo todo. -  Viu, como valeu a pena sua vida? Viu, menina? Viveu tanta coisa e está aqui mexendo este corpo que se fortaleceu com o formão da vida.
Os pensamentos positivos me ajudaram muito e me direcionaram. Se hoje pratico natação, caminhada e frequento aulas de Tai-Chi, dança e outras coisas mais, foram conquistados com muita luta e muita perseverança.


sonia delsin


É PROIBIDO PROIBIR

Deus, que estou lembrando aqui!
Um fato do passado que chega a ser cômico.
Eu tinha meus lindos dezoito aninhos e experimentava o amor.
Ah, o amor!
Este cigano louco que nos rouba o coração. Que nos faz perder a razão.
O delegado da cidade em que eu morava era contra o amor (contra beijos de amor).
Dizia que devia zelar pelo moral e pelos bons costumes.
Espalhou-se na cidade o boato que ele não permitiria jamais que os casais trocassem beijos nos bancos das praças da cidadezinha, ou em qualquer canto.
Que os policias estariam atentos e os que fossem encontrados executando ato tão obsceno seriam severamente repreendidos. Havia até quem dissesse que ele mandaria prender na cadeia da cidade os inconsequentes beijoqueiros.
A verdade era que a cidade era bem pacata e nada violenta naquela época. Um cantinho do mundo sossegado. A autoridade policial de nossa cidade estava incomodada com beijos.
É verdade mesmo isso que conto aqui. Não estou querendo fazer uma piada não.
Eu como já disse anteriormente estava conhecendo a amor e é muito natural que meu namorado e eu adorávamos nos beijar.
Pois uma noite, sentados num banco rústico de praça, nos beijávamos apaixonadamente quando alguém nos interrompeu colando as mãos em nossos rostos.
Deus, meu coração gelou!
Pensei: E agora? Que vergonha!
Abri os olhos com receio de encarar o policial.
Era pouco mais que uma menina e tão inocentezinha.
Abri lentamente os olhos com medo da cara que veria à minha frente.
Mas qual!
Era um amigo nosso que fazia uma brincadeira.
Que alívio eu senti!
Afinal eu tinha dezoito primaveras.
Nunca esqueci a sensação daquela mão tocando meu rosto durante o beijo. Parece que eu estava cometendo o maior pecado do mundo e fora pega em fragrante.
Que coisa!
Nunca mais vi este amigo, pois os nossos caminhos se desencontraram totalmente.
Parece-me que o delegado foi substituído logo. Nem lembro bem do fato já que poucos meses depois disso eu me mudei da cidade e nem sei qual a razão de ter recordado este fato hoje.
Acho lindo um casalzinho se beijando. Sempre fui a favor do amor. Alguns são um pouco empolgados demais, mas os tempos mudaram...

E viva o amor!

sonia delsin


A VENDEDORA DE CUECAS

Esta noite vendo o Jô Soares me surpreendi com uma velhinha muito simpática que contou com a maior naturalidade do mundo que ela descobriu para si a galinha dos ovos de ouro.
Isto é só um modo de falar, porque ela trabalha duro para ganhar o pão de cada dia.
Tem setenta e um anos, mas aparenta bem menos. Uma graça ela.
Contou que há três anos sai na noite paulistana para vender cuecas.
Disse que vai a restaurantes e barzinhos e já fez sua freguesia que aumenta a cada dia. Diz que é querida e respeitada pela clientela.
Contou que um filho a auxilia levando-a de carro (uma Brasília), mas que já fez isso de ônibus, o que era bem difícil, pois tem artrose.
São lições de vida.
Ela até presenteou o Jô com uma cueca e demonstrou como chega até o cliente dos restaurantes e fez questão de frisar que pede autorização antes de entrar em qualquer recinto, mas que nunca a impedem de entrar não.
Ela disse também que adora o que faz, que adora trabalhar. Mostrou diante das câmeras como são bonitas as cuecas que vende. Contou quais as cores mais apreciadas pelos homens, contou que homens acompanhados acatam a opinião da acompanhante.
Adorei o que vi, porque vejo tantas pessoas na idade dela dizendo que a vida acabou.
Ela só volta altas horas da madrugada para casa e acha maravilhoso o que está fazendo. Ah, e contou também que pra ela não existe fins de semana de folga e que não pára de trabalhar nem nas datas mais festivas. Mas que isso não a incomoda e sente prazer em fazer o que faz.
Bem, eu apreciei muito esta reportagem que vi embaixo das cobertas numa noite fria e fiquei pensando que em noites tão frias quanto esta aquela simpática senhora está trabalhando. Não pude deixar de pensar nisso.

sonia delsin